Carta de Alfredo Pimenta para Oliveira Salazar

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Carta de Alfredo Pimenta para Oliveira Salazar

Detalhes do registo

Nível de descrição

Documento simples   Documento simples

Código de referência

PT/AMAP/FAM/AALP/01-02-02/002-017/10-29-6-8-94

Tipo de título

Atribuído

Título

Carta de Alfredo Pimenta para Oliveira Salazar

Datas de produção

1940  a  1940 

Dimensão e suporte

11 f. (30 x 21 cm); papel

Extensões

1 Capilha

Autor intelectual

Registo Código Tipo de relação Datas da relação
Registo de autoridadePimenta, Alfredo Augusto Lopes. 1882-1950, historiador, escritor e poeta AAP/AP Autor

Âmbito e conteúdo

A prisão de Hipólito Raposo e a censura.

Tradição documental

Tipo técnica de registo

Assinaturas

Alfredo Pimenta

Condições de acesso

Comunicável

Condições de reprodução

A reprodução deverá ser solicitada por escrito através de requerimento dirigido ao responsável da instituição.

Aspeto físico

Cota atual

10-29-6-8-94

Idioma e escrita

Escrita

Notas de publicação

Referência bibliográficaPublicada in: SALAZAR E ALFREDO PIMENTA: Correspondência, 1931-1950 / Prof. Manuel Braga da Cruz .[Lisboa]: Verbo, 2008, pp. 129-131.

Transcrição

1940 n.º A-145 4.º feira Ex.mo Snr. Presidente do Conselho: - envio, com muito prazer, a V.ª Ex.ª os meus dois últimos trabalhos. Não sei se terá tempo ou disposição para os ler. Não importa. A homenagem que traduz o eu lembrar-me de os oferecer a V.ª Ex.ª fica feita. E agora - outro assunto. Tinha lido, irritado, indisposto e revoltado, o lastimoso prefácio do último livro do meu amigo Hipólito Raposo, e decidira já vir a terreiro combater a sua posição, quando me são enviadas, cortadas pela Censura, as provas de um artigo meu - que peço licença a V.ª Ex.ª para lhe enviar, chamando a Sua atenção para o facto. É claro que a decisão que tomara de condenar o prefácio do Hipólito Raposo foi inutilizada pela atitude da Censura. O Governo mandou apreender o livro, e, ao que consta, prendeu o autor. Aceito que o Governo precise de esbirros; mas não posso deixar de observar a V.ª Ex.ª que mais lhe convém a cooperação das inteligências livres. Apreender um livro, e enclausurar ou deportar o seu autor significa, para muita gente, que o livro é justo, e o autor juiz competente. O que um livro precisa é de ser criticado - para que o público conheça os seus sofismas ou os seus exageros. Mas só pode criticá-lo quem é respeitado nos seus juízos. Graças a Deus, não escrevi nunca uma linha que merecesse o aplauso dos inimigos da Nação - e eu considero inimigos da Nação os partidários da República. O que escrevo destina-se sempre a esclarecer o Governo - isto é, V.ª Ex.ª, ou os monárquicos. Nunca recebi, aqui, em casa, um simples cartão de felicitações da parte dos republicanos, ou, na rua, um aperto de mão desses senhores. E teria vergonha de os receber. Eu não escrevo, não trabalho para servir os interesses ou ambições dessa gente. E graças a Deus, também, não tenho um artigo censurado, porque ele seja de critica áspera e derrotista, negativa e dissolvente, a actos do Governo. A montanha de escritos meus enxovalhados pela Censura, foram-no por serem de doutrinação monárquica. E isso honra-me. Honrando-me, dá-me autoridade para falar a V.ª Ex.ª como tenho falado e falo. V.ª Ex.ª reparará no caso presente. O artigo que a Censura cortou, de alto a baixo, não é mais do que simples glosa do que já foi publicado na Voz - com licença da mesma Censura! Eu apenas sublinho o desenvolvo lealmente o texto publicado. Nesse texto não há qualquer espécie de agressão ao Governo; não a há no comentário. E o pouco que há, num e noutro, de critica é a expressão pura da verdade. De modo que a situação começa a esclarecer-se - penosamente. O Governo proíbe as diatribes acrimoniosas como as do Hipólito Raposo; e, ao mesmo tempo, proíbe a simples, honesta e legitima doutrinação monárquica como a que eu faço. V.ª Ex.ª não repara em que condenando a minha doutrinação, justifica as diatribes dos outros?Ainda ontem, discutindo vivamente com um grande amigo meu, este incidente, ele me dizia, em face das provas da Censura, que a minha experiência estava feita, e era tempo perdido querer prolongá-la. E, efectivamente, tempo perdido o querer prolongá-la? Nesse caso V.ª Ex.ª praticaria um acto nobre e digno, se mo dissesse sem refolhos - para eu não estar aqui, ridiculamente, a tentar servir o pais, quando a çonsigne oportuna é que o dessirva, - para eu não estar aqui, estupidamente, a tentar ajudar V.ª Ex.ª conduzir a Nação aos seus verdadeiros destinos, quando o desejo de V.ª Ex.ª é de que o deixe e abandone. Não tenho interesse pessoal absolutamente nenhum na missão que me impus. A minha sinceridade desafia todas as apreciações. O que digo, penso e escrevo é movido exclusivamente pelo desejo do Bem Comum. Vejo, sinto e oiço o que se está a preparar. Os melhores já estão tocados do mal. Tenho dito dezenas de vezes a V.ª Ex.ª que não se iluda com aplausos de turbas ou louvores interessados. Tenho dito dezenas de vezes a V.ª Ex.ª que 80% dos que o aclamam o fazem porque V.ª Ex.ª está no poder. Se, amanhã, V.ª Ex.ª recolher a Coimbra ou a Santa Comba, todos eles o esquecerão, e se o seu sucessor, possivelmente, o Ministro da Justiça, desfizer a sua obra, nenhum dos que o aclamou erguerá um dedo para o defender. Tenho dito a V.ª Ex.ª muita vez que o problema político é o primeiro a resolver. V.ª Ex.ª proclamou o contrário, sem pensar que as realidades o desmentiam. Porque sem o condicionalismo político que o 28 de Maio lhe criou, V.ª Ex.ª nada teria feito. Precário, embora, ele tornou possível a sua obra que depende da estabilidade desse condicionalismo. Urge torná-lo definitivo. E urge cada vez mais. Porque temo que quando V.ª Ex.ª quiser fazê-lo, seja demasiado tarde. Mas se V.ª Ex.ª condena os doutrinadores como eu, se V.ª Ex.ª me coloca a mim no prato da balança em que coloca o inimigo da Nação desde o republicano ao comunista; se V.ª Ex.ª jugula da mesma maneira o meu pensamento e o pensamento anárquico e pernicioso, afasto-me vencido, e convencido de que são os outros quem tem razão, e não eu. Poderá V.ª Ex.ª observar-me que bastante tenho dito. A minha posição, ou os meus intentos, os meus percursos, e a minha compreensão do papel que V.ª Ex.ª desempenha, e das condições em que o faz, não suportam o bastante. Porque o meu pensamento não quer ser tolerado quer ser compreendido e respeitado. Se os doutrinadores como eu se calam, aborrecidos e ofendidos, que resta a V.ª Ex.ª? Sim: que lhe resta, Senhor Presidente do Conselho? Em nome dos mais altos interesses da Nação lhe peço: erga V.ª Ex.ª os olhos, das contingências do Presente liberte-se das influências do momento, oportunistas e ladeadoras de dificuldades, cerre os ouvidos às lisonjas e aos amens sistemáticos — e rasgue confiadamente os horizontes a esta pobre terra — entusiasmando as consciências sãs, fazendo vibrar os espíritos jovens, criando-lhes, em vez da fascinação do homem que passa, o culto da Instituição que fica. Repito o que já disse a V.ª Ex.ª não amesquinhe a Providência, atribuindo-lhe a intenção de encarregar V.ª Ex.ª apenas de sanear as Finanças públicas. Mais alto, mais alto, Senhor presidente do Conselho! E comece V.ª Ex.ª por dar à Inteligência livre e nobre, isenta e briosa, independência condigna - para que ela possa proclamar, sem embaraços, as verdades nacionais que V.ª Ex.ª sabe tão bem como eu, quais são, combatendo, ao mesmo tempo, os sofismas e excessos negativistas que apareçam. Escrevo-lhe com o espírito toldado de tristeza, receoso das piores catástrofes, e a convencer-se da inutilidade de todos os meus esforços. Deus permitisse que tudo isto fosse pessimismo de momento ! De V.ª Ex.ª muito sincero amigo e admiradorA.P.

Relações com registos de autoridade

Relações com registos de autoridade
Registo Código Tipo de relação Datas da relação
Registo de autoridadePimenta, Alfredo Augusto Lopes. 1882-1950, historiador, escritor e poeta AAP/AP Autor