Carta de Alfredo Pimenta para Oliveira Salazar

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Carta de Alfredo Pimenta para Oliveira Salazar

Detalhes do registo

Nível de descrição

Documento simples   Documento simples

Código de referência

PT/AMAP/FAM/AALP/01-02-02/002-017/10-29-19-5-29

Tipo de título

Atribuído

Título

Carta de Alfredo Pimenta para Oliveira Salazar

Datas de produção

1948-12-23  a  1948-12-23 

Dimensão e suporte

7 f. (30 x 21 cm); papel

Extensões

1 Capilha

Autor intelectual

Registo Código Tipo de relação Datas da relação
Registo de autoridadePimenta, Alfredo Augusto Lopes. 1882-1950, historiador, escritor e poeta AAP/AP Autor

Âmbito e conteúdo

O caso da Academia Portuguesa de História; o papel da União Nacional; a candidatura presidencial de Oliveira Salazar.

Tradição documental

Tipo técnica de registo

Assinaturas

Alfredo Pimenta

Condições de acesso

Comunicável

Condições de reprodução

A reprodução deverá ser solicitada por escrito através de requerimento dirigido ao responsável da instituição.

Aspeto físico

Cota depósito

PT/AMAP/010/029/019/005/029

Cota atual

10-29-19-5-29

Idioma e escrita

Escrita

Notas de publicação

Referência bibliográficaPublicada in: SALAZAR E ALFREDO PIMENTA: Correspondência, 1931-1950 / Prof. Manuel Braga da Cruz .[Lisboa]: Verbo, 2008, pp. 365-367.

Transcrição

1948 29?-12., n.º 2B- 381 - nota: verifica-se pelo teor que esta carta é anterior - 383 da mesma data às 4h da tarde Lisboa 5ª feiraEx.mo Snr. Presidente do Conselho. - não respondi logo à carta que V.ª Ex.ª teve a bondade de me escrever anteontem, porque fiquei tão impressionado com ela, que me faltou a coragem para o fazer. Não sou capaz de descortinar as relações regulamentares, burocráticas ou morais que prendem a Academia Port. da História e a Torre do Tombo. E bastava o facto insólito de a queixa da Academia ser assinada pelo 2º vice-presidente que só para esse fim estava em exercício, para que o snr. ministro visse que se tratava muito simplesmente de mais uma garotice do snr. Marcelo Caetano. Tudo aconselha a que se ponha termo a esse caso da Academia. Uns tantos académicos (e não a Academia!) difamaram-me, caluniaram-me e expulsaram-me da Academia. O snr. ministro reconduziu-me ao meu lugar. Mas o agravo subsistiu, porque esses repararam. Persistindo o agravo, ninguém pode contestar-me o direito de me desagravar. Para o fazer, só tinha duas maneiras de o fazer satisfatoriamente, ou expulsar os agravantes ou chicoteá-los com a minha pena. Expulsá-los só o snr. Ministro podia fazê-lo. Chicoteá-los era o meu dever moral: chicoteei-os. Os cavalheiros, trazendo à frente o Marcelo Caetano, queixam-se. Queixam-se, e fazem mais: sobrepõem-se ao Ministro, porque me expulsam de novo, - desconhecendo-me, deixando de me convidar para as sessões normais da Academia. E chego a esta situação curiosa: esses cavalheiros não podem colaborar comigo - porque os agravei no meu opúsculo, mas eu podia colaborar S.as Ex.as que me tinham difamado, caluniado, injuriado - e expulsado da Academia! O snr Ministro deu seguimento à queixa. Respeito muito a sua decisão, mas não posso concordar com ela. A Justiça é a Justiça; a Honra é a Honra, esteja quem estiver em causa: o fraco e obscuro como eu, ou o forte e grand seigneur da situação como o Marcelo Caetano. Mas que tem isto que ver com a Torre do Tombo? A Torre e a Academia são instituições independentes. E bom é que o sejam sempre. De resto, como membro da Academia, limitei-me a trabalhar, enquanto se não meteram comigo; como funcionário da Torre - nestes dezassete anos que tenho de vida como funcionário, nunca dei ocasião à mais leve censura ou observação. Aguardaria, pois, com toda a serenidade, a decisão ministerial, se não suspeitasse de que ela poderia afectar a minha posição na Torre. Fala-me V.ª Ex.ª de dificuldades. A confiança que tenho na estima de V.ª Ex.ª anima- me a dizer que as não atinjo. Mas é possível que isto seja por falta de compreensão da minha parte. Para as remover, a essas dificuldades, há duas pessoas que chegam e sobram: V.ª Ex.ª e o snr. Ministro. E sobre isto nada mais tenho a dizer. É claro que da parte da carta de V.ª Ex.ª relativa à disposição do snr. Ministro, nem sequer a minha mulher e a minha filha sabem. Felizmente nem uma nem outra estavam em casa, quando a carta de V.ª Ex.ª chegou. Foi-me fácil, pois, manter a confidência, tal como V.ª Ex.ª me mandou que se observasse. Quanto ao silêncio político que as circunstâncias me impõem, a culpa não é de V.ª Ex.ª nem minha: é da União Nacional e da Censura. Esta inventou que se tratava de jornal novo — o que não era verdade ou era tão verdade como quando saiu o jornal sob a direcção do Joaquim Lança. Como decretou que era jornal novo, a Censura informou que só autorizaria a sua publicação, se a União Nacional comunicasse que não via inconveniente no caso. Bateu-se à porta da União Nacional. E até V.ª Ex.ª fez o favor de mandar para lá o Memorial remetido à Presidência do Conselho. Isto passou-se há um mês. A União Nacional nem disse que sim, nem disse que não. A sua atitude não me surpreende. Segundo a confissão pública do snr Marcelo Caetano (sempre este fantasma!) na União Nacional há «monárquicos, republicanos, democratas e liberais». Com esta mixórdia, não é de espantar que se deem certas coisas. Perdoe-me V.ª Ex.ª que esclareça um equívoco que passou na sua carta. Dizia-me V.ª Ex.ª «noto que V. pretende manter-se em silêncio». Peço desculpa. Eu nunca disse que pretendia ou pretendo manter-me em silêncio. Antes pelo contrário. Fiz mais do que devia, para não estar ausente na luta. Quase dei a impressão de estar a pedinchar esmola ou favor. Se o Chefe de Gabinete de V.ª Ex.ª quiser falar verdade, pode esclarecer completamente V.ª Ex.ª. O que propositadamente fiz foi evitar enfadar V.ª Ex.ª com este assunto. Em primeiro lugar, para lhe não roubar tempo; depois, para o não misturar nestas pequenezas — onde há muitas intrigas, maquiavelismo, atitudes suspeitas, atritos, etc., depois para o deixar à vontade julgar os acontecimentos; e finalmente para ficar bem acentuado o seu alheamento do caso, para que se não repetisse aquela miséria do Joaquim Lança, propalada aqui, e até na Radio N. de Espanha. E se V.ª Ex.ª me não tocasse no assunto em essa carta, ainda não seria agora que eu falaria nele. De politica? Tudo isto é tremendo. Pretendendo impor a V.ª Ex.ª a aposentação ou a recolha prematura no Museu dos Venerandos, a União Nacional, à voz do snr. Marcelo Caetano (este fantasma sempre!), ficou a pedir um acto de energia e de clarividência: a sua dissolução. Aquela manifestação carnavalesca; feita de encomenda, através do pessoal dos organismos corporativos, a empurrar V.ª Ex.ª para a Presidência da República, é um triste sintoma do estado de coisas em que se vive. E V.ª Ex.ª não ouve (nem eu lho direi!) como comentam os amigos do snr. Marcelo Caetano a atitude dos snrs. Mário de Figueiredo, Lumbrales e Gustavo Ramos - por estes se terem manifestado contra a aposentação de V.ª Ex.ª. Nunca futurei bem dessa União Nacional, mas nunca esperei que chegasse onde chegou. Na província, não vale nada, não serve para nada. Em Lisboa — é o que se vê. Dizem que está para breve um Congresso da mesma União Nacional, no Porto, e que V.ª Ex.ª proferirá lá um grande discurso. Deus o inspire. É claro que estas opiniões que exponho a V.ª Ex.ª são a consequência da muita consideração que V.ª Ex.ª me merece, e da gratidão que lhe devo pelo exemplo que nos dá a todos nós de seriedade, de honestidade e de desinteresse. Tenha a bondade de desculpar o tamanho escandaloso desta carta. Mas a paciência de V.ª Ex.ª habituou-me a estes abusos. Com toda a estima, de V.ª Ex.ª muito e inútil amigoA.P.

Relações com registos de autoridade

Relações com registos de autoridade
Registo Código Tipo de relação Datas da relação
Registo de autoridadePimenta, Alfredo Augusto Lopes. 1882-1950, historiador, escritor e poeta AAP/AP Autor